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A distribuição do futuro será menos sobre movimentar produtos e mais sobre orquestrar ecossistemas – Por Bruna Silvestro

Durante décadas, a competitividade na distribuição foi construída sobre pilares muito claros: eficiência logística, capilaridade, disponibilidade de produtos, nível de serviço e velocidade de atendimento. Esses atributos continuam essenciais e dificilmente deixarão de ser.

Mas o ambiente de negócios mudou.

As cadeias tornaram-se mais complexas. A indústria ampliou seus portfólios, o varejo passou a conviver com consumidores mais exigentes, os canais se multiplicaram e a quantidade de informações disponíveis cresceu exponencialmente. Ao mesmo tempo, as margens ficaram mais pressionadas, tornando cada decisão comercial mais relevante.

Ao longo da minha trajetória, atuei em modelos de negócio bastante diferentes entre si. Inteligência comercial, relacionamento, geração de demanda, tecnologia e execução pareciam disciplinas distintas. Mas havia algo em comum entre todas elas: os melhores resultados quase nunca dependiam apenas da excelência de uma empresa. Dependiam da capacidade de diferentes elos atuarem de forma orquestrada.

Foi essa percepção que me levou a olhar para a distribuição sob uma perspectiva diferente.

Os maiores desafios das cadeias já não estão, necessariamente, dentro de cada empresa. Eles surgem, cada vez mais, nas interfaces entre elas.

É comum encontrarmos organizações extremamente competentes operando individualmente e, ainda assim, resultados aquém do esperado para toda a cadeia.

Não porque a indústria tenha desenvolvido uma estratégia inadequada.

Não porque o distribuidor tenha falhado na entrega.

Nem porque o varejo tenha deixado de executar seu papel.

Muitas vezes, o valor simplesmente se perde entre esses movimentos.

Um lançamento pode chegar ao mercado dentro do prazo, uma campanha comercial pode ser bem estruturada e o abastecimento pode acontecer conforme o planejado. Ainda assim, o resultado esperado não se concretiza. Faltam alinhamento entre prioridades, visibilidade sobre a execução, compartilhamento de informações e capacidade de ajustar rapidamente a operação à realidade do mercado.

Em outras palavras, a cadeia funciona, mas sua execução nem sempre é orquestrada.

E talvez seja justamente essa capacidade de orquestração que se torne uma das maiores fontes de vantagem competitiva nos próximos anos.

Quanto maior a complexidade do mercado, maior passa a ser o custo da falta de orquestração.

É nesse cenário que acredito que a distribuição começa a assumir um papel diferente daquele que historicamente desempenhou.

Sua relevância continuará sendo medida pela excelência operacional. Mas essa excelência, por si só, tende a deixar de ser suficiente para diferenciar os protagonistas do setor.

Entre todos os participantes da cadeia, poucos ocupam uma posição tão singular quanto a distribuição. Ela acompanha, simultaneamente, as prioridades da indústria, os desafios do varejo e a realidade da execução no ponto de venda. Essa posição oferece algo raro: a capacidade de enxergar a cadeia como um sistema, e não apenas como uma sucessão de transações.

Essa visão cria uma oportunidade que vai muito além da movimentação de produtos.

Permite orquestrar informações, aproximar parceiros, identificar oportunidades de execução, antecipar necessidades do mercado e reduzir perdas que surgem justamente nas interfaces entre os diferentes participantes da cadeia.

Orquestrar um ecossistema não significa assumir o protagonismo das decisões nem concentrar responsabilidades. Significa criar as condições para que cada elo desempenhe melhor o seu papel, reduzindo ruídos, acelerando o fluxo de informação e fortalecendo a capacidade coletiva de execução. Quanto maior a complexidade das cadeias, maior tende a ser o valor gerado por quem consegue promover essa orquestração.

Não se trata de substituir o papel da indústria, do varejo ou de qualquer outro agente.

Tampouco de centralizar decisões.

Trata-se de fortalecer as conexões entre eles para que estratégia e execução permaneçam alinhadas até o ponto de venda.

Ao revisitar minha própria trajetória, percebo que inteligência comercial, relacionamento, tecnologia, geração de demanda e execução nunca foram temas isolados. Todos buscavam responder, de maneiras diferentes, à mesma pergunta: como aumentar a capacidade de orquestração da cadeia para que melhores decisões se transformassem em melhores resultados?

Essa transformação também explica por que competências antes consideradas complementares passam a ganhar protagonismo.

Inteligência comercial, dados, tecnologia, capacidade analítica, serviços de valor agregado e relacionamento deixam de ser apenas diferenciais competitivos. Passam a ser instrumentos de orquestração, capazes de conectar decisões que antes aconteciam de forma isolada.

Naturalmente, essa evolução exige uma mudança de mentalidade.

Durante muito tempo, a principal pergunta era: como movimentar produtos de forma mais eficiente?

Sem abandonar essa preocupação, uma nova pergunta começa a ganhar espaço:

Como utilizar a posição privilegiada da distribuição para aumentar a capacidade de orquestração de toda a cadeia?

A resposta dificilmente estará em uma única iniciativa.

Ela estará na capacidade de transformar informação em ação, aproximar interesses, reduzir fricções e criar condições para que indústria, distribuidores, varejo e demais parceiros atuem de maneira verdadeiramente orquestrada.

No fim, a logística continuará sendo indispensável. Afinal, nenhuma cadeia prospera sem eficiência operacional.

Mas acredito que o verdadeiro diferencial competitivo dos próximos anos será construído em outra dimensão.

Quanto mais complexa se torna a cadeia, menos vantagem existe em otimizar apenas um elo. O diferencial competitivo passa a estar na capacidade de orquestrar o desempenho do conjunto.

A distribuição continuará movimentando produtos.

Mas seu papel será cada vez menos o de apenas conectar empresas e cada vez mais o de orquestrar um ecossistema em que informação, estratégia, relacionamento e execução circulem com a mesma eficiência dos produtos.

 

 

Sobre a Autora: Bruna Silvestro é executiva com quase duas décadas de experiência em estratégia comercial, crescimento de negócios e transformação de operações, com atuação nos mercados de tecnologia, saúde e distribuição. Ao longo da carreira, liderou iniciativas de Go-to-Market, growth, desenvolvimento de negócios, inteligência comercial e evolução de operações, sempre com foco na construção de modelos de crescimento sustentáveis e na integração entre estratégia, clientes e execução. Também produz conteúdos sobre estratégia, distribuição, crescimento de negócios e liderança.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruna-silvestro/