Faturar mais não significa lucrar mais — e essa é uma das maiores ilusões do canal indireto.
Vendas empurra volume goela abaixo para bater a meta do trimestre. A logística entra em colapso tentando absorver o custo de servir desse caos operacional. E o Trade Marketing? Continua isolado em sua bolha, focado em aprovar verba para campanhas promocionais desconectadas da realidade do campo. Essa é a anatomia de um desastre financeiro que o mercado de bens de consumo chama, ironicamente, de “parceria comercial”.
O Paradigma do Crescimento Ilusório
Vivemos uma epidemia de crescimento de fachada no mercado brasileiro. A Indústria, asfixiada pelas pressões do conselho e do mercado financeiro, dobra a aposta em metas agressivas de Sell-in. O resultado prático no Canal Indireto? Estoques abarrotados nos distribuidores, estrangulamento brutal do capital de giro e um custo de armazenagem que corrói a última gota de margem. Faturar mais não significa ganhar mais. Quando a Indústria joga o estoque no parceiro sem o alinhamento estratégico para garantir a vazão desse volume, o que o fabricante chama de “crescimento”, o distribuidor chama de “falência técnica”. O Trade Marketing, quando opera em silos, é cúmplice dessa destruição de valor.
Os 3 Pilares do Trade Marketing de Alta Gestão
O Trade Marketing moderno não gerencia campanhas; ele gerencia o P&L (Lucros e Perdas) do canal compartilhado. Ele é o Integrador Estratégico que equilibra a balança entre a sede por volume da Indústria e a necessidade vital de proteção de margem do Distribuidor. Para que isso aconteça, a operação precisa se apoiar em três pilares inegociáveis:
Pilar 1: Alinhamento de S&OP entre Indústria e Distribuidor: O planejamento de Vendas e Operações não pode parar na doca da fábrica. O Trade estratégico unifica as previsões de demanda, garantindo que o Sell-in seja um reflexo matemático da capacidade real de Sell-out, eliminando o empurrômetro que sufoca o caixa do parceiro.
Pilar 2: Precificação e Combate ao Conflito de Canais: Volume sem governança destrói o mercado. O Trade de alta gestão atua ativamente na arquitetura de preços, evitando que políticas comerciais frouxas gerem canibalização entre atacadistas, distribuidores e o varejo direto. Proteger o ecossistema é mais importante que fechar o pedido do mês.
Pilar 3: Transformação de ‘Centro de Custo’ para ‘Centro de Rentabilidade’: Acabou a era do “investimento no escuro”. O Trade deve liderar a redução do Custo de Servir (CTS), alocando verbas não por relacionamento, mas por Retorno sobre Investimento (ROI) comprovado e ganho real de margem líquida na ponta da cadeia.
O Check-list do CEO
Convido todo diretor de Indústria e dono de Distribuidora a olhar para suas operações e responder a três perguntas desconfortáveis:
- O seu Trade Marketing senta na mesa com a Logística e Finanças antes de desenhar um plano de negócios (JBP), ou só é chamado depois que o Custo de Servir estourou a margem?
- O modelo de remuneração e metas da sua empresa bonifica o volume empurrado (Sell-in) ou a rentabilidade sustentável na ponta (Sell-out limpo)?
- O distribuidor é tratado genuinamente como uma extensão estratégica do seu negócio, ou apenas como um depósito terceirizado com um CNPJ diferente para absorver seu risco?
Conclusão
A transição não é mais uma opção, é uma questão de sobrevivência mercadológica. Enquanto insistirmos em modelos transacionais, continuaremos enxugando gelo e destruindo valor. O Trade Marketing precisa assumir sua cadeira no Boardroom e operar como o arquiteto da rentabilidade do Canal Indireto. Só assim deixaremos de vender ilusões para construir negócios sustentáveis.
Gustavo Duarte
Fundador da Distribuição Brasil | Especialista em Go-to-Market e Vendas



