Trade Marketing no Canal Indireto não é “material”, é método – Por Cesar Duro

Eu quero começar com uma cena que eu já vi vezes demais.

Sala de reunião de distribuidor, café forte, planilha aberta, calendário promocional na parede e um arsenal de ações: ponta de gôndola, encarte, display, bonificação, prazo, desconto, promotor extra.

Aí alguém faz a pergunta errada (do jeito certo):

“Qual foi a principal alavanca de venda do produto X no PDV?”
“Quanto essa alavanca cresceu?”
“E por qual motivo?”

Silêncio.

A famosa cara de tela azul aparece. Porque, no fundo, a maioria das empresas faz trade marketing como quem repete um ritual: copia, cola, executa… e torce. E quando dá certo, ninguém sabe por quê. Quando dá errado, ninguém sabe o que ajustar.

Agora vem a parte que incomoda (e liberta):

A crença universal que está quebrando seu trade

A maioria acredita que trade marketing é sobre criar ações.
No canal indireto, isso vira “campanha” e campanha vira “custo inevitável”.

Só que trade, na vida real, é outra coisa:

Trade é o sistema que transforma execução em dado e dado em decisão.
Sem isso, você não tem trade. Você tem barulho.

E a ironia é simples: o canal indireto é onde mais se investe “no escuro”.
Merchandising, descontos, prazos, incentivos, verbas de ativação… a conta anual passa fácil de centenas de milhares de reais. E mesmo assim, falta o básico: governança, medição e pós-jogo.

O sintoma mais comum: campanha sem intenção

O que eu vejo de mais disfuncional hoje é o trade sem pensamento estratégico.

A ação nasce assim:

  • “O mercado está fazendo.”
  • “Ano passado funcionou.”
  • “A indústria pediu.”
  • “O distribuidor topou.”

E morre assim:

  • sem objetivo claro,
  • sem hipótese de alavanca,
  • sem indicador definido,
  • sem ritual de acompanhamento,
  • sem post-mortem.

Isso não é trade. Isso é piloto automático disfarçado de execução.

Eu vi uma empresa global (categoria de alto giro) rodar uma campanha nacional com uma base ampla de distribuidores. Quando fomos auditar a execução, o que apareceu nos “excels dos parceiros” foi um retrato do caos: uma única campanha tinha virado sete versões diferentes. Sem intenção do distribuidor, sem anuência da indústria e, principalmente, sem qualquer chance real de governança e análise pós-ação. A regra era complexa, a comunicação era ambígua e o campo fez o que o campo sempre faz: interpretou. Resultado: dinheiro gasto, aprendizado zero.

O problema não é “o distribuidor”.
O problema é achar que dá pra fazer trade em escala com regras confusas + planilha + esperança.

Boa execução no campo não é “playbook”. É laboratório.

Teve uma época em que “boa execução” era:

  • guia de execução,
  • precificação certa,
  • gôndola limpa,
  • material no lugar.

Isso hoje é o mínimo.
É como dizer que um vendedor é bom porque tomou banho e apareceu com uniforme.

A régua subiu.

Boa execução, no canal indireto, é a que aumenta penetração, giro e margem no PDV, com governança. É a execução que transforma a rua no que ela sempre foi, mas pouca gente admite:

O campo é o laboratório a céu aberto do canal indireto.
E o time de trade é o grupo de pesquisadores que deveria estar medindo o que funciona.

Sem dado, o “laboratório” vira teatro.

E quando é que eu sei que um ciclo promocional foi bem executado?

Quando existe playback (o pós-jogo honesto), e os sinais aparecem no que importa:

  • melhora de margem do pedido e lucro bruto médio,
  • desconcentração de mix,
  • ampliação de horizontalização de portfólio,
  • incremento de margem de contribuição,
  • redução de risco de concentração (categoria, fornecedor, produto, cliente ou vendedor).

Se sua campanha só aumentou faturamento e piorou mix, você não fez trade. Você comprou volume.

O caso que dá certo (e quase sempre começa com um incômodo)

Eu já vi campanha dar muito certo no indireto quando três coisas acontecem ao mesmo tempo:

  1. Indústria e distribuidor param de “negociar verba” e começam a negociar tese.
  2. O campo recebe direção clara do que buscar.
  3. A execução é acompanhada como jogo: com painel, leitura e ajuste.

Num caso real (sem nomes, por ética), o distribuidor tinha um risco clássico: dependência demais de um fornecedor, aquele que sustenta o mês, mas sequestra a estratégia. A virada veio quando a campanha não foi desenhada para “vender mais do mesmo”. Foi desenhada para reduzir risco e melhorar margem.

A estratégia foi objetiva:

  • escolher um fornecedor com potencial de aumento de vendas com incremento de margem de contribuição via mix;
  • aumentar positivação de duas linhas específicas;
  • ampliar carteira de clientes (menos concentração);
  • e usar um detalhe que muita gente ignora: foco no primeiro ciclo do mês para antecipar pedidos e tirar o time da armadilha da última semana.

Consistência ao longo do ano não só mudou o perfil de venda como colocou o distribuidor em outro patamar de execução, a ponto de ser reconhecido num programa de excelência pela performance de positivação.

Percebe a diferença?

Não foi uma campanha “bonita”.
Foi uma campanha com tese, método e governo.

“Qual material de PDV funciona?”: a resposta que quase ninguém gosta

A pergunta está errada.

Funciona o que está alinhado com a estratégia específica daquele PDV, categoria, região e perfil de varejo. O material é consequência.

Eu já fiz uma ativação simples que ensinou mais do que muita teoria:
pegamos um espaço morto, o “estoque avançado” na última prateleira do pé da gôndola de detergente — e trocamos por uma ativação de esponjas.

Detergente:

  • giro alto,
  • margem baixa,
  • compra planejada e sensível a preço.

Esponja:

  • giro mais lento,
  • margem alta,
  • compra pouco “disciplinada” (não é hábito de massa trocar semanalmente),
  • e, geralmente, fica longe do detergente (sem lembrança de compra).

Ao unir os dois, o PDV ganhou rentabilidade por giro e a operação ganhou margem de contribuição. Não foi “criatividade”. Foi economia + comportamento de compra + execução.

O papel da indústria no trade do indireto: co-piloto. Não financiadora.

A indústria precisa parar de tratar o distribuidor como um “replicador de campanha”.

No canal indireto, o protagonismo é do distribuidor.
Porque o canal é o core dele. O nível de nuance (região, cliente, rota, hábito de compra, microeconomia do PDV) nunca estará 100% no alcance da indústria.

E aqui vai uma frase que resume décadas de campo:

Canal é mais importante do que produto.
Produto bom morre por execução ruim. Produto ruim vira sucesso por estratégia de canal.

Quando indústria e distribuidor não têm maturidade de trade estratégico, o que sobra é política comercial, incentivo e urgência. E urgência é um vício caro.

ROI de trade: o jeito simples de parar de mentir pra si mesmo

ROI não é “sentimento”. É conta.

ROI de trade = (incremento atribuível × margem do mix) − investimento
Tudo isso dividido pelo investimento.

Quando você faz isso com disciplina, duas coisas acontecem:

  1. você descobre quais campanhas pagam a empresa;
  2. você descobre quais campanhas só pagam a ansiedade.

E quando você descobre, muda o jogo: trade deixa de ser “mal necessário” e vira investimento com tese.

Os 3 mandamentos do Trade no Canal Indireto

Se você guardar só uma parte desse texto, guarda isso:

1) Governança

Campanha sem governança vira interpretação.
E interpretação, no campo, vira variação.

Governança é:

  • regra clara,
  • scorecard definido,
  • ritual de leitura,
  • e pós-jogo obrigatório.

2) Inteligência

Extrair valor dos dados dos quatro pilares:
clientes, produtos, fornecedores e equipes.

É isso que transforma “campanha” em alavanca.

3) Revisão

Sem post-mortem, você está condenado a repetir.
E repetir sem aprender é o jeito mais caro de operar.

Revisão é melhoria contínua em cima de métrica, não em cima de opinião.

O EUREKA que muda tudo

Trade Marketing no canal indireto não é sobre fazer mais ações.

É sobre responder uma pergunta que pouca gente tem coragem de encarar:

“O que, exatamente, está fazendo meu produto girar com margem no PDV, e como eu provo isso?”

Quando você responde isso, acontece o clique:

  • o campo deixa de ser “execução” e vira fonte de inteligência;
  • a indústria deixa de ser “financiadora” e vira co-piloto;
  • o distribuidor deixa de ser “operador logístico” e vira parceiro estratégico de canal.

E é exatamente aqui que entra o tipo de entrega que eu construí na Sellers: transformar campanha em sistema, com modelagem, governança, acompanhamento em tempo real e pagamento automatizado de premiação, sem planilha, sem ruído e sem achismo.

Porque, no fim, o que separa um trade “bonito” de um trade “milionário” é uma coisa só:

a capacidade de transformar execução em dado — e dado em decisão.

E quando você faz isso… você não precisa de sorte. Você precisa de método.

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